04 julho 2013
A Janela
Meu nome é Domenic. Moro em um hospital psiquiátrico. É um lugar para pessoas diferentes. É o que eles dizem, mas na verdade os diferentes aqui são eles. Fico pensando o que faz uma pessoa diferente. Ela deve seguir um padrão de comportamento diferente da maioria. No fim, é a ditadura da maioria que diz quem é normal e quem não é. Mas aqui dentro, nesse lugar, os diferentes são eles. Os loucos são a maioria. Não é fácil ser louco. Vocês acham que é como nos filmes? Que tudo acaba bem? Não. Nada acaba bem por aqui e esse é o problema. Nada acaba. Eu gostaria muito que tudo isso acabasse. É confuso, sabe, pensar e ser de um jeito que dizem que é diferente. Eu pessoalmente, não vejo diferença. Olhe quanta gente estranha existe por aí, fazendo coisas idiotas. Muitas estão no poder. Então por que estou aqui? O tempo parece não passar neste lugar. Na verdade é um tempo estranho. Parte de você deseja que ele passe rápido para que tudo acabe. E outra parte deseja que ele pare, e você possa viver, ser feliz. E aqui tudo que me resta...
Meu nome é Dario. Estou na penitenciária há doze anos. Minha pena foi alta, ainda me restam trinta e cinco. Dirigi bêbado aos dezesseis, matei muita gente. Crianças e adultos. Fui julgado aos dezessete e entrei naqueles portões para sair aos sessenta e quatro anos. Me deram a bebida, eu não pedi. Me deram as chave do carro, eu não queria. Entrei aqui saído da infância. Eu tinha muitos sonhos, queria fazer uma faculdade, conhecer garotas, ir ao cinema, jogar bola, ir à praia, andar na grama num dia de sol com meu filho. Sairei daqui um velho. Não terei chance de realizar aquilo que tinha planejado em minha vida, não tenho amigos, não terei família. Qual é a lição que se leva disso? Prenderam uma criança e darão de volta um idoso à sociedade. Muitos podem pensar que eu mereço isso pelo que fiz. Mas a verdade é que o arrependimento não demora uma vida toda. Você se arrepende do que fez na primeira noite na cadeia. O resto é apenas melancolia. É como entrar num túnel escuro e sai do outro lado no fim de sua vida, sem ter feito coisa alguma. O tempo aqui é diferente. Quem passa a vida num lugar desses não se acostuma com o tempo da sociedade. O tempo fora daqui. E aqui tudo que me resta...
Meu nome é Daniel. Eu tenho uma doença degenerativa. Uma moléstia incurável que leva o nome de um alemão. Você começa a ficar fraco, depois senta, depois deita. E nunca mais se levanta. Não consegue falar, nem mexer os dedos, nem o pescoço, ou qualquer outra parte do seu corpo, apenas os olhos. Na verdade, depois de um tempo, você passa a odiar o seu corpo. Existe uma mente ali. Ativa, incansável e cheia de energia. E sua mente quer fazer muitas coisas. Ela que correr, falar, dançar, criar. Principalmente criar. Você tem tantas ideias. Você inventa filmes inteiros na sua cabeça, mas não há nada a se fazer. O pior de tudo é quando seus familiares vêm no hospital no dia de visitas. Eles conversam e eu não posso responder. Eu tenho em mim tantas ideias, tanto a dizer a todos eles. Com o tempo eles diminuem as visitas e isso é bom para mim e para eles. É estranho, mas depois de décadas preso em seu próprio corpo, você passa a odiar as pessoas. Todas elas, inclusive aquelas que você deveria amar. O que eu não daria por um bolo de chocolate, por uma cerveja, por um beijo e um sexo com uma mulher? Eu daria tudo. Daria a vida de qualquer pessoa neste planeta. Eu ferraria qualquer pessoa para que eu pudesse ter um mínimo de alegria. Eles me mudam de posição duas vezes ao dia. Deitado cama para dormir, e sentado em frente à janela. E aqui tudo que me resta...
(...)
E aqui tudo que me resta é olhar pela janela e ver as pessoas do lado de fora. Como elas têm sorte e não sabem. Simplesmente por estar ali, podendo fazer o que querem, sem saber o quanto suas raivas, frustrações e dilemas são desejados por quem não os pode ter. Seus problemas insignificantes, em seus pequenos mundos, seus desejos não correspondidos, seus choros solitários, sua liberdade. Tudo, se eu pudesse eu teria tudo isso. O que eu mais gosto é de ver as crianças, pois eu me lembro de minha própria infância, quando não havia tudo isso. Quando eu nem desconfiava da verdade.
A vida é um capricho cruel. Nada há de brilhante nela e o seu fim é sempre ruim. O mais frustrante não é que não conseguiremos jamais entender o mistério do universo. O mais frustrante é que não há mistério algum.
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Este é um blog literário. Todo conteúdo de crônicas e diários são meramente fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, acontecimentos ou fatos terá sido mera coincidência.
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